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A máquina de fatiar vidas

O que fazemos com o tempo que temos? Quanto tempo nos resta? Até que ponto somos nós que decidimos como aproveitar esse tempo? Da “Alegoria da Vaidade” de Antonio de Pereda à “Persistência da Memória” de Dalí, a inexorável passagem do tempo tem sido tema recorrente, refletindo a nostalgia do passado idealizado e a perplexidade ante a finitude da vida.


Obra do Artista Valdir Santana



“A Máquina de Fatiar Vidas” promove a identificação imediata com seu lado mais tenso. E questiona o porquê da rendição a um condicionamento que só é inevitável para quem tenha aberto mão do senso crítico ou da liberdade de escolha.

A imagem em si é de uma grande riqueza cromática e traz uma miríade de detalhes, todos eles repletos de significados. A colagem com técnica mista retrata o stress de uma vida controlada. A gravata, sufocante coleira social, que nos prende a compromissos de ordem política, religiosa e empresarial. Valdir retrata a interação com engrenagens que passam a fazer parte do próprio indivíduo. Uma realidade que persiste desde os “Tempos Modernos” de Chaplin.

Em destaque, um ponto de convergência natural, o relógio, que incorporado ao homem, atrai e escraviza. Nossos olhos e nossas vidas. A dança giratória de seus ponteiros marca o quanto a areia do tempo segue escapando entre nossos dedos. Há uma harmonia cúmplice entre os formatos circulares do relógio e da caveira. Faces da mesma moeda dessa “Máquina de Fatiar Vidas”. Tempo roubado para a escravidão moderna que chamamos de trabalho. Um trabalho escolhido não pela vocação, mas pelo retorno financeiro, para comprar objetos que a sociedade nos faz considerar indispensáveis. A moda, os costumes, as tradições, são eternos mecanismos de controle social a que nos submetemos, como diria Joseph Glanvill (citado por Allan Poe) “pela fraqueza de nossa débil vontade”. Sutilmente esse sistema nos controla e oprime. E seguirá assim até o dia em que percebermos que todos nossos problemas nascem de nossas decisões. Até aprendermos a dizer “não”. Enquanto ainda temos tempo.



Marisa Melo

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