• Marisa Melo

Artista? Mas trabalha também?




Se você perguntar sobre as diferenças entre a vida hoje e trinta anos atrás, provavelmente receberá comentários sobre a inexistência de celulares e sobre a possibilidade de fumar em restaurantes. Mas talvez as mudanças mais marcantes sejam as do nosso modo de falar. Brincadeiras e expressões que antes eram aceitas, hoje são consideradas inaceitáveis. Sem entrar na discussão do politicamente correto, o fato é que as pessoas agora começam a se policiar para não agredir, sem pensar, diferentes credos e gêneros.


Falo do preconceito que ainda nos dias de hoje está presente. Começando pela situação em que se pergunta a profissão e a resposta é “artista”. Alguém questiona: Artista? Mas trabalha também? Fotógrafo? Mas o que faz para viver?

Revivemos a fábula de Esopo, em que as formigas trabalharam no verão para garantir o sustento no inverno, enquanto a cigarra cantou o verão inteiro e quando chegou o inverno teve de pedir abrigo às formigas. A condenação é certa para quem vive a cantar. Ainda que se chame Elis Regina, Fred Mercury ou Andrea Bocelli.


Estamos num longo processo de aprendizado. Mesmo assim, ferimos as pessoas sem perceber. Com comentários impensados, brincadeiras desnecessárias. Que machucam, independente de quem fale. Mas que se tornam ainda mais dolorosas quando vêm de pessoas de quem se espera carinho e apoio.


Tenho testemunhado exemplos em que o menosprezo vem dos pais, que preferem ver o filho engenheiro e não pintor. Vem dos filhos que criticam as ousadias artísticas do pai ou da mãe. Vem do cônjuge, que em plena exposição critica e desvaloriza as obras do marido ou da esposa.


Eles esquecem a luta de quem se aventura no mundo da Arte.

Esquecem que não há apoio nenhum do governo. Nenhum incentivo à Cultura que favoreça quem busca um lugar ao sol para seu livro, seus quadros, suas canções.

Esquecem a dificuldade que representa a falta de hábito de consumir Arte no Brasil. Apenas mais um problema num país que não consegue educar nem oferecer saúde ou segurança para uma população explorada, carente e desassistida.


Todos profissionais, sem exceção, merecem respeito. Ainda mais os que têm a coragem de seguir o que manda o coração e enfrentam, a cada dia, a pressão de formigas que, no fundo, adorariam ser cigarras.



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