Marisa Melo entrevista Júlia d'Paula. Uma conversa com a artista tocantinense sobre trajetória, cerrado e o que significa crescer dentro da arte
- Marisa Melo

- 13 de mai.
- 4 min de leitura

Júlia d'Paula tem 16 anos, mais de 200 obras, cinco exposições individuais e uma carreira promissora. Nasceu em Palmas, no Tocantins, e começou a pintar aos quatro anos sem que ninguém tivesse planejado.
O que chama atenção na trajetória de Júlia não é só a precocidade. É a consistência. Uma artista que estuda direito e arquitetura ao mesmo tempo em que mantém uma galeria própria e continua produzindo, com o cerrado do Tocantins como território de pesquisa.
Nesta entrevista, conversamos sobre o início, sobre os prêmios, sobre Van Gogh, sobre o que significa levar o bioma brasileiro para contextos onde poucos sabem o que ele é, e sobre o que uma carreira construída desde a infância ensina sobre a arte que só se aprende vivendo dentro dela.

1. Você começou a pintar aos quatro anos. O que te levou à tela tão cedo, foi uma escolha ou simplesmente aconteceu?
Simplesmente aconteceu, pois, em julho de 2012, eu me revelei pintora para a minha mãe sem saber que estava fazendo isso.
Eu tinha apenas quatro anos e não me lembro desse dia, mas a minha mãe conta que eu e ela estávamos no escritório e, enquanto ela trabalhava, eu imprimi vários desenhos para colorir e, o resultado final de um deles chamou a atenção dela, em razão de eu não ter ultrapassado as linhas do desenho e de ter feito uma inesperada composição de cores em giz de cera.
A partir desse dia, a minha mãe passou a investir em material de pintura para mim. E eu aproveitei todas as oportunidades que tive.
2. O cerrado do Tocantins é uma presença constante na sua obra. Existe uma diferença entre pintar uma paisagem que você conhece desde sempre e pintar algo que você apenas observa?
Sim, a proximidade traz mais repertório e mais domínio também. Isso influencia diretamente no processo de pintura, desde a forma como eu entendo as proporções até como eu percebo luz, sombra, cores e atmosfera. Não é só uma questão de olhar e reproduzir, é uma questão de memória, de vivência e de sensibilidade construída ao longo do tempo.
Pintar algo que eu conheço tão profundamente me permite ir além da representação literal, porque eu já tenho uma relação afetiva e íntima com aquilo.
3. Aos treze anos, “Ipês do Tocantins” venceu o V Salão Palmense de Novos Artistas. Um prêmio desse peso muda a forma como um artista se enxerga?
Sim, mudou muito, pois esse prêmio foi resultado de um júri popular e essa validação popular mudou a minha forma de me enxergar. Foi, a partir desse dia, que me vi como artista plástica mesmo.

4. Sua série “Jardins do Tocantins” esteve exposta em Paris, Madrid, na Finlândia, Bélgica, e no Japão. O que significa levar o cerrado para esses contextos, onde poucos sabem o que ele é?
Enaltecer as belezas naturais do bioma Cerrado, para ajudar na sua divulgação e preservação.
5. Van Gogh é sua maior referência. O que você enxerga na obra dele que ainda te diz algo hoje?
As pinceladas, a originalidade e expressividade dele.
6. Você estuda direito e arquitetura ao mesmo tempo em que mantém uma carreira artística ativa. Como você equilibra áreas tão distintas, e elas se alimentam de alguma forma?
Eu consigo equilibrar tudo isso porque, embora sejam áreas distintas, todas elas fazem parte da minha vida, de tudo que sou e estou feliz realizando tudo isso.
A arquitetura, para mim, é muito sobre olhar o mundo com mais atenção. É pensar espaços, formas, luz, e principalmente como as pessoas se sentem dentro disso tudo.
Já a arte entra como meu lado mais livre, onde eu consigo expressar o que às vezes não cabe em projeto ou em palavra, é mais sentimento mesmo, mais intuitivo.
E o direito faz parte da minha vida por causa da minha família, então ele sempre esteve muito presente no meu dia a dia, nas conversas, na forma de pensar.
No fim, eu não vejo essas áreas como separadas. Eu só sinto que cada uma me ensina uma forma diferente de enxergar a vida.
A arquitetura me organiza, a arte me solta e o direito me ancora.
E eu vou equilibrando tudo isso de um jeito muito pessoal, tentando não escolher entre elas, mas fazer com que todas convivam em mim de forma leve.
7. Você começou a pintar aos quatro anos e já construiu uma trajetória que poucos artistas adultos têm. O que essa carreira precoce te ensinou sobre a arte que só se aprende vivendo dentro dela?
Começar a pintar tão cedo foi algo muito espontâneo para mim, não foi uma escolha pensada, simplesmente fazia parte do que eu era desde sempre. Eu nunca vivi a arte como algo separado da minha vida, ela sempre esteve comigo de forma natural.
Com o tempo, o que essa trajetória me ensinou é que a arte vai muito além do talento ou do resultado final. Ela é processo, é constância, é sensibilidade no dia a dia e uma forma muito própria de enxergar o mundo. Ser artista não é sobre um momento específico, mas sobre uma construção contínua, que acompanha todas as fases da vida.
Hoje, o reconhecimento é algo muito gratificante para mim, porque ser reconhecida por algo que eu amo fazer e que faz parte do meu ser é muito significativo. Não é só sobre “fazer arte”, é sobre ver que aquilo que é tão meu também alcança outras pessoas de alguma forma. Isso me motiva e reforça ainda mais essa conexão que eu sempre tive com a arte.














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