• Marisa Melo

No silêncio das galerias vazias

O contundente Nelson Rodrigues dizia “Toda unanimidade é burra. Quem pensa com a unanimidade não precisa pensar.”




Houve um tempo em que viajar de avião era chique. Champagne e camarão servidos a um público que desfilava ternos, luvas e chapéus. Inúmeras escalas. Preços extorsivos. As regras eram outras, o fumo era livre e a bebida, servida à vontade, levava a cenas desagradáveis quando os “elegantes” passavam mal ou se socavam nos corredores. Mas tudo, é claro, com muita classe.


Alguns saudosos dessa época ficaram bastante contrariados quando os preços baixaram e democratizaram um pouco as viagens ao exterior. Lamentaram a perda de mais uma oportunidade de reafirmar sua superioridade financeira.


Se as viagens internacionais perderam parte do glamour, as galerias de arte continuam sendo palco e passarela para muito ego e exibicionismo, muitas vezes associados a um interesse meramente financeiro. Assim, obras de arte são discutidas, analisadas e vendidas por pessoas que têm mais pose do que conhecimento.


O contundente Nelson Rodrigues dizia “Toda unanimidade é burra. Quem pensa com a unanimidade não precisa pensar.”

Então não vamos generalizar sobre as galerias de arte. Existem as poucas interessadas na Arte e nos artistas. Mas são raríssimas exceções que só confirmam a regra.


Uma galeria digna do nome deveria ser a ponte para levar o artista ao público e, consequentemente, ao mercado. Mas isso não tem acontecido. E a visitação às galerias físicas está caindo no mundo todo.


Nessas galerias, muitas vezes, artistas inexpressivos mas com networking, ganham um espaço que não merecem, para mostrar um talento que não têm. Quando emergentes talentosos conseguem, por outros meios, a duras penas, alguma visibilidade é que as galerias os “descobrem”. A exploração do artista é mais uma faceta da metástase elitista que garante e preserva a supremacia dos medíocres.


Os artistas iniciantes não têm facilidade de expor. Mas mesmo os famosos se revoltam porque não sentem que as galerias ajudem na comercialização. Alguns artistas brasileiros simplesmente não expõem aqui. Seus agentes no exterior chegam a vender antecipadamente, toda a produção do ano seguinte. Para que eles vão querer expor no Brasil? E vai para exportação muito do melhor de nossa arte. Reduzida a uma commodity, como o café. Em nossa limitação cultural, o sucesso no exterior ainda é passaporte para o reconhecimento. Assim se eterniza a síndrome de colônia, uma característica inequívoca de indigência cultural.


Já o público vê na galeria um ambiente que intimida. Porque os atendentes podem manifestar uma indiferença total, usarão um palavreado antiquadamente hermético, e buscarão mostrar que sabem tudo de tudo.


De um modo condescendente, talvez entreguem um catálogo escrito num dialeto rebuscado com uma leve semelhança com o Português.

O elitismo está presente até nos horários de galerias que abrem no meio da manhã e fecham perto do começo da noite. Parece que o objetivo é excluir o público que trabalha em período integral.


Quem perguntar se há mais quadros além dos expostos, pode ser conduzido a alguma sala à parte onde dezenas de obras estarão empilhadas esperando que alguém se arrisque a mexer na pilha ou no mostrador. Quase sempre se percebe que são pouco vistos, a julgar pela poeira acumulada. Se, ainda assim, o acaso levar o comprador à obra, a galeria será regiamente compensada pela “promoção”. Isso é promoção?

O que essas galerias não perceberam é que o mundo mudou. A internet mudou o modo como o público se relaciona com a arte. Na web está disponível um conteúdo muito rico, sem palavras difíceis e sem mofo. O futuro da divulgação está nas feiras de arte internacionais e nas galerias virtuais, que democratizam o acesso e a informação.


Há uma outra mudança fundamental acontecendo. O público está pedindo uma arte customizada, e, importante: esteticamente agradável. Esse é o termo para dizer “bonita”. A beleza na Arte é um tabu. Porque a expressão artística não deveria ser acorrentada e reduzida ao belo. Mas, pelo mundo, galerias estimulam fotos junto às obras atendendo ao público que só quer ser fotografado com as “bonitas” para divulgar, é claro, nas redes sociais. Aí se encontram os temas da beleza e da informação. Entrou para o folclore o caso de uma galeria italiana onde, em 2015, os responsáveis pela limpeza jogaram no lixo uma obra de arte moderna (composta por garrafas no chão). Faltou informação. Mas muitas vezes a informação esclarecedora é ignorada por compradores que estão mais interessados em saber se o quadro combina com a cor da parede ou do tapete.


Onde acontece a promoção ativa dos novos artistas?

Onde acontecem as iniciativas inovadoras para facilitar o acesso à obra dos artistas consagrados?

Onde o Artista pode conseguir uma recepção acolhedora e a orientação conceitual para sua eventual aquisição de uma obra de arte?


Tudo indica que feiras internacionais e galerias virtuais serão o caminho.

Isso é uma tendência. O tempo dirá.

Mas o que hoje já sabemos com certeza, é onde essas atividades não acontecem:

no silêncio das galerias vazias.



In the Silence of Empty Galleries

There was a time when flying was chic. Champagne and shrimp served to an audience that paraded suits, gloves and hats. Countless scales. Extortionate prices. The rules were different, smoking was free and the drink, served at will, led to unpleasant scenes when the "elegant" were sick or punched in the corridors. But everything, of course, with a lot of class.

Some travelers from that era were very upset when prices fell and democratized travel abroad. They regretted the loss of yet another opportunity to reaffirm their financial superiority. Inheritors and socialites who embarrass us at airports around the world, skipping lines, with their excessive makeup and luggage.

Anyone who wants to appear superior sometimes doesn't even realize that it is having the opposite effect.

The truth is that many people are obsessed with status and with other people's opinions. Social media shows this clearly. Everybody wants to look younger, more stylish, richer and happier than they really are. Even though they need Photoshop and fake smiles to achieve this effect.

If international travel has lost some of its glamor, art galleries are still the stage and catwalk for a lot of ego and exhibitionism, often associated with a purely financial interest. Thus, works of art are discussed, analyzed and sold by people who have more pose than knowledge.

The blunt Nelson Rodrigues said “All unanimity is stupid. Whoever thinks with unanimity does not need to think.” Generalization follows the same path. Like someone being mugged by a left-handed thief would call thieves all left-handed. It is very wrong, but we do it all the time. Feeding prejudices that have been debated on issues of race, gender and creed.

So let's not generalize about art galleries. There are few interested in Art and artists. But there are very rare exceptions that only confirm the rule.

A gallery worthy of the name should be the bridge to take the artist to the public and, consequently, to the market. But this has not happening. And visitation to physical galleries is falling worldwide.

In these galleries, often expressionless artists with good networking gain a space they don’t deserve, to show a talent they don’t have. Sometimes talented emergent manage, by other means, with great difficulty, some visibility. That’s when the galleries “discover” them. The artist's exploration is yet another facet of elitist metastasis that guarantees and preserves the supremacy of the mediocre.

Beginning artists do not have an easy time to exhibit. But even the famous ones revolt because they don't feel the galleries help with selling. Some Brazilian artists simply do not exhibit here. Their agents abroad sell in advance, all the production of the following year. Why would they want to exhibit in Brazil? And it goes to export much of the best of our art. Reduced to a commodity, like coffee. In our cultural limitation, success abroad is still a passport to recognition. Thus, the colony syndrome is eternalized, an unequivocal characteristic of cultural poverty.

The public sees the gallery as an intimidating environment. Because the attendants can express total indifference to the insignificant presence of the visitor. Or, at the opposite extreme, they will analyze him from head to toe, trying to evaluate the bank account by the car in the parking lot, by the shoes, socks and hairstyle. They will use old-fashioned hermetic wording and try to show that they know everything about everything. In a condescending way, perhaps they will deliver a catalog written in an elaborate dialect with a slight resemblance to our normal language.

Elitism is present even in the gallery hours: they open in the middle of the morning and close near the beginning of the night. It seems that the objective is to exclude the public that works full time.

Whoever asks if there are more paintings than those on display, can be taken to a separate room where dozens of works will be piled up waiting for someone to risk touching the pile or the display. It is almost always noticed that they are little seen, judging by the accumulated dust. If, even so, chance leads the buyer to the work, the gallery will be royally compensated for the "promotion". Is this promotion?

What these galleries did not realize is that the world has changed. The internet has changed the way the public relates to art. Very rich content is available on the web, without difficult words and without mold. The future of dissemination lies in international art fairs and virtual galleries, which democratize access and information. Ironic to remember that some of the major art fairs require a physical address as a requirement for participation. But that is changing.

There is another fundamental change taking place. The public is asking for customized art, and, importantly: aesthetically pleasing. This is the term for saying "beautiful". Beauty in art is taboo. Because artistic expression should not be chained and reduced to beauty. But, around the world, galleries stimulate photos next to the works serving the public that only wants to be photographed with the “beautiful ones” to publicize, of course, on social networks. So we have the themes of beauty and information. The case of an Italian gallery came to folklore where, in 2015, those responsible for cleaning threw a piece of modern art in the trash (it was composed of bottles on the floor). There was a lack of information. But often enlightening information is ignored by buyers who are more interested in whether the painting matches the color of the wall or carpet.

Where does the active promotion of new artists take place?

Where do innovative initiatives take place to facilitate access to the work of renowned artists?

Where can the public get a warm welcome and conceptual guidance for their eventual acquisition of a work of art?

Everything indicates that international fairs and virtual galleries will be the way.

This is a trend. Time will tell.

But what we now know for sure, is where these activities do not happen:

In the silence of the empty galleries.


5 visualizações

Subscribe to our Newsletter

São Paulo - Brasil

Contato: 55 (11) 99724 0909

  • Grey Facebook Icon
  • Grey Instagram Icon
  • Cinza ícone do YouTube

UP Time

UP Time Art Gallery@ 2019