• Marisa Melo

Philippe Seigle, o Globetrotter das Artes





Philippe Seigle é o globetrotter das Artes. O artista francês morou em 20 dos 70 países que conheceu e sua obra reflete elementos das mais variadas culturas. Com a exposição “O Globetrotter das Artes”, ele nos convida para uma viagem no tempo e no espaço, percorrendo diferentes países e diferentes épocas.

França, Itália, México, Brasil, aparecem retratados através de suas mulheres, praias e igrejas. O exotismo e as cores vibrantes também nos contam sobre sua juventude, sua experiência com o teatro e a pantomima. Ele também nos desafia a uma reflexão sobre temas como liberdade e manipulação.

O objetivo da coleção é que o observador embarque nessa viagem e assimile através das imagens e do estilo inconfundível de Philippe Seigle, um pouco de cada experiência por ele vivida. E passe a enxergar a vida e o mundo com um olhar renovado, mais otimista, mais colorido e mais alegre. Como o próprio Philippe.






"La parisienne"

Em sua jornada artística, o francês Philippe Seigle nos apresenta a mulher parisiense. Na Paris que nos envolve com sua arquitetura, sua cultura, sua magia, seguimos, ao som de Piaf, da Champs Elysées a Montmartre percorrendo os caminhos trilhados pela arte. De Victor Hugo a Monet. De Hemingway a Picasso.

A mulher parisiense faz de Paris sinônimo de glamour. Ela traz dentro de si esse estilo naturalmente elegante, ao mesmo tempo misteriosa e sedutora. Por seu modo de andar, de olhar, suas echarpes, e acessórios. Pelo ar despreocupadamente confiante, de quem tem plena consciência do poder de seu charme.

A elegância de Deneuve e a sensualidade de Bardot seguem desfilando nas ruas de Paris em outras Catherines e outras Brigittes que traduzem e renovam o eterno fascínio da Paris de nossos sonhos.






"Les héritiers" (os herdeiros)

A viagem artística volta à França, onde começou. Philippe Seigle nos recorda as grandes casas da década de 50, e uma juventude privilegiada, querendo deixar para trás as lembranças da guerra, embalada pelo crescimento econômico que se seguiu.

Parte das raízes dessa arquitetura está nos loucos anos 20, um período de efervescência cultural que atraiu para a França Hemingway e Fitzgerald, Dalí e Picasso. Os herdeiros (Les héritiers) desse legado, na década de 50 resgataram o significado da expressão bon-vivant.

Jovens de famílias burguesas aproveitando a despreocupação financeira, com o mundo a seus pés.

Muito tempo se passou desde então. Mas aquelas casas vão permanecer por muitos e muitos anos como um registro de tempos de glória e fartura. Philippe Seigle, com suas cores e seus quadros vem nos lembrar que as guerras e as crises sempre terminam. Que a vida sempre volta a ser inspiradora e feliz. Como as telas do próprio Philippe.






"El pueblo"

Em nossa memória afetiva, guardamos com carinho os lugares em que vivemos momentos felizes. Com “El pueblo”, o viajante Philippe nos faz viajar no tempo e no espaço. Vamos com ele para os anos de sua adolescência no México.

A lembrança compartilhada nos traz de tempos muito antigos a cultura asteca e suas pirâmides.

O folclore e a religião celebrados em festas animadas que partiam da Igreja e se estendiam para a plaza e pelas ruas de paralelepípedos com suas casas de fachadas coloridas.

Um lembrança que nos conta muito do artista. Que conseguiu incorporar para a vida essa busca da alegria, uma eterna adolescência. Que ele expressa em suas telas tão vibrantes quanto as festas e tão coloridas quanto as fachadas do querido pueblo de sua juventude.






"Copa Beach"

Nosso roteiro nos leva agora para Copacabana, para um cenário de luz e calor. Philippe nos mostra um Brasil ensolarado e colorido. De bem com a vida no Rio de Janeiro da mundialmente famosa Garota de Ipanema.

E se é verdade que praia e sol são uma marca registrada do Brasil, o artista acrescenta mais um elemento de integração social e diversão: o esporte. A paixão nacional tem seu templo no Maracanã, mas o talento brasileiro que brilha em ginásios e estádios de todo o mundo, nasce nas praias, nos morros, no Aterro.

Num cenário em que a dedicação ao prazer é estilo de vida, o Rio de Janeiro é a própria definição de “hedonismo”. Lembrando a todos nós que há mais para se fazer na vida além de trabalhar. E que a diversão, o amor e a amizade exigem um tempo que não está à venda.






"Vidas"

Com a obra “Vidas”, Philippe Seigle nos mostra que o México tem uma visão da morte que o diferencia no Ocidente. Em vez de encará-la como um tabu e associar seu rito a lágrimas e desespero, os mexicanos realmente vivem a mensagem de continuidade, numa combinação entre Oriente e Cristianismo. Para eles, o Dia dos Mortos é uma celebração.

Mais que aceitação, é uma festa, cheia de cores e alegria. Pelos que foram para planos felizes e, ao mesmo tempo, seguem vivos em nossa memória. Philippe retrata um Yin-Yang ao nos lembrar que é natural existir morte em meio à vida. E que existe vida depois da morte. Para quem vai e para quem fica.






"The Toy"

Em “The toy”, temos uma reflexão sobre manipulação. Num sentido exclusivamente artístico, Philippe Seigle nos fala de relacionamentos através de uma alegoria ao teatro de marionetes. E, ao mesmo tempo, destaca a redução do ser humano a um objeto. A um toy, um brinquedo.

Muito se fala na exploração da imagem da mulher, de sua redução à condição de mulher-objeto. Nesse sentido, a mulher é valorizada exclusivamente por sua beleza física. Philippe inverte a equação e nos mostra um homem reduzido à condição de objeto.

A beleza física, o estereótipo da estátua grega, confinando também o homem a um rótulo. E submetendo-o à manipulação das mulheres, numa troca de papeis cada vez mais frequente. Até ficarmos todos em dúvida sobre quem manipula e quem realmente é manipulado.






"Panchita"

Philippe Seigle, o Globetrotter das Artes, nos leva ao México e, com Panchita, reafirma sua admiração pela beleza. Das paisagens e das mulheres. Há um forte apelo sentimental, das lembranças do tempo em que viveu no México.

E há um desafio sutil que ele lança ao apresentar “Panchita” num rancho mexicano. Um ambiente que é retratado muitas vezes de forma parcial ou até preconceituosa, como sendo essencialmente masculino, um mundo de armas, pistoleiros e violência.

Philippe chama nossa atenção para a beleza da mulher mexicana. Que dá um colorido especial a uma região que têm lutado ao longo dos séculos, por terra ou poder. Onde outros retratam conflitos, Philippe opta por valorizar a beleza e a figura feminina. Que se diferencia por sua postura delicada, mas ao mesmo tempo firme para conquistar o espaço que é seu.






L’échiquier

Com cores vivas, o caleidoscópio artístico de Philippe Seigle nos leva para diferentes lugares e diferentes épocas. Mas também nos põe para pensar em nosso papel e em nossa sociedade. A obra “L’échiquier” nos questiona sobre nossa visão de liberdade e livre-arbítrio.

Quem comanda nossa vida? Decidimos realmente nossos rumos? Até que ponto a vida nos limita e conduz, de um modo que nem percebemos? Nossas opiniões são forjadas pelos fatos que a mídia divulga. Muitas vezes sem a devida isenção. Recebemos informações limitadas, influenciadas por interesses políticos e financeiros. E, sem a devida reflexão pessoal, acabamos votando, consumindo, comendo e vestindo.

Como peças num tabuleiro de xadrez, somos sutilmente manipulados e conduzidos por um sistema que tira proveito de cada um de nós. O tabuleiro pode ser lindo, colorido, sedutor. Mas continuamos sendo apenas peças do jogo. Até o dia em que consigamos acordar e reagir.






"Hat me"

Há artistas que dominam diferentes formas de expressão e lançam mão de diferentes meios e materiais para transmitir sua mensagem. O artista francês Philippe Seigle não se limita às telas. Suas tintas podem estar em chapéus e numa adorável meta-linguagem ele nos apresenta um quadro sobre seus chapéus.

Numa época em que o uso de chapéus não é mais tão generalizado como foi no século passado, eles ganharam espaço como um elemento de individualização, tanto na moda feminina como na masculina.

Somos julgados o tempo todo. Pelo que fazemos. Pelo que dizemos. Pelo que vestimos.

Nesse sentido, os chapéus são complementos de nossa personalidade. A contar sobre nossa ousadia, sobre a imagem que projetamos. Num período de globalização e massificação, são elementos de diferenciação.






"Pacoxoch"

Philippe Seigle viveu parte de sua juventude no México e esse período teve uma grande influência em sua formação e em sua obra. Com “Pacoxoch”, ele expressa sua paixão pela cultura asteca.

Os astecas cultuavam mais de duzentos deuses. Cada um deles governando um aspecto da vida. A noite, o Sol, a chuva, o milho. Da Pedra do Sol às pirâmides, há todo um rico simbolismo que Philippe retrata com muita técnica e muito sentimento.

A fusão da herança Asteca com o Cristianismo moldou uma religiosidade mexicana que se traduz em fé, alegria e numa visão mais ampla de conceitos desafiadores como a própria morte. Os fragmentos, as lembranças que Philippe compartilha em sua obra, permitem a cada um de nós a conexão e a identificação com culturas do mundo todo, expressões dessa enorme família que chamamos de Humanidade.






"Pantomime"

Em “Pantomime” Philippe Seigle relaciona o tema das máscaras a seus tempos de teatro, uma paixão que vem da juventude. A pantomima ganha significado especial por ser um teatro essencialmente gestual, sem a dependência da palavra. O artista visual já pratica essa comunicação sem palavras. Seja por expressões faciais e movimentos, seja pelas imagens que fixa na tela.

Há um paralelo com nossa vida, que pode ser comparada a uma peça que se desenvolve em vários cenários. Em diferentes ambientes sociais, somos cobrados por nossos comportamentos, opiniões, filosofias de vida. Com nossas máscaras, convivemos e contracenamos com outros artistas, para muitas plateias.

Até o dia em que descerão as cortinas e seremos aplaudidos não pelo nosso personagem. Se fomos pais, mães, doutores ou operários. Os aplausos virão na proporção em que soubemos desempenhar nossos papeis irradiando amor e alegria em cada ato. Como faz Philippe em cada tela.




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